Famílias de crianças atípicas em Paranaguá estão em alerta e relatam a interrupção dos atendimentos terapêuticos prestados pela Secretaria Municipal de Inclusão. A denúncia chegou à Câmara de Vereadores nesta segunda-feira (13), durante sessão ordinária marcada por cobranças por transparência do Executivo Municipal. Parlamentares apontam que, com a saída de profissionais da pasta, centenas de crianças ficaram sem atendimento psicológico, fonoaudiólogo, terapia ocupacional e equoterapia, entre outros serviços.
O requerimento 202/2025, de autoria do vereador Luiz de Sá Maranhão Neto (PL), o Luizinho Maranhão, foi aprovado por unanimidade. O documento solicita ao prefeito Adriano Ramos (Republicanos) e à secretária de Inclusão, Isabele Dias, uma série de informações: quais profissionais deixaram a secretaria em 2025, quais os motivos da saída, se foram realocados, se houve suspensão ou redução de serviços e se há previsão de reposição da equipe.
“Nós tínhamos uma Secretaria da Inclusão que atendia 2.800 pessoas por mês. Era referência. Atendia crianças com autismo, Síndrome de Down, TOD, TDAH, ofertava equoterapia, Libras, apoio parental. Hoje, isso tudo está parado. O estrago está feito”, declarou Luizinho ao utilizar a tribuna.
Segundo o vereador, o esvaziamento da pasta atingiu especialmente famílias de baixa renda, que dependiam exclusivamente do serviço público para garantir o desenvolvimento das crianças.
Desorganização e desinformação
A vereadora Tenile Xavier (PSD) também se manifestou, ressaltando que, com a reforma administrativa promovida no início do ano, estruturas como o Centro Municipal de Avaliação Especializada (CMAE) e o Centro de Autismo foram remanejadas para a Secretaria de Educação. Isso teria provocado uma desorganização nos fluxos e gerado desinformação generalizada entre os pais e responsáveis.
“Já estivemos em reuniões com os secretários das três pastas — Saúde, Educação e Inclusão —, mas seguimos sem respostas claras. As famílias não sabem para onde foram os profissionais, nem quando ou se as terapias voltarão. O requerimento do vereador Luizinho expressa a angústia de toda esta Casa Legislativa”, afirmou Tenile.
Tem justificativa?
O presidente da Câmara, Adalberto Araújo (Republicanos), explicou que a retirada de profissionais da Secretaria de Inclusão ocorreu, segundo o Executivo, por razões técnicas. A medida estaria relacionada à exigência de adequação administrativa para que o município possa receber recursos federais destinados a projetos específicos. Conforme justificativa apresentada, a permanência dos servidores exclusivamente na Secretaria de Inclusão impediria o acesso a essas verbas, sendo necessária a realocação para pastas como Saúde e Educação, que possuem estrutura e rubricas compatíveis com os convênios disponíveis.

Mesmo reconhecendo a justificativa, os vereadores cobraram mais transparência e, principalmente, agilidade nas soluções. Halleson Stieglitz (União Progressista), que é pai atípico e autor do projeto “Autismo na Prática e Neurodiversidade”, também se pronunciou em apoio às famílias e reforçou que a reposição da equipe técnica deve ser prioridade.
“Sabemos que alguns profissionais se aposentaram, outros retornaram para suas secretarias de origem. Mas é urgente repor essa força de trabalho. A ausência de terapias contínuas prejudica diretamente o desenvolvimento das crianças. O impacto é imensurável”, afirmou Halleson.
A sessão da segunda-feira foi marcada por um paradoxo simbólico: enquanto a Câmara aprovava o projeto de lei que institui o Dia da Mãe Atípica em Paranaguá, mães de crianças com deficiência não sabiam a quem recorrer. A crítica foi levantada por Luizinho. “Aprovamos hoje o Dia da Mãe Atípica. Mas o que vamos dizer a essas mães? Que suas crianças estão sem atendimento, sem fono, sem psicólogo, sem TO? Isso é o cúmulo da contradição”, protestou.
O que diz a SEMI: atendimentos parciais, equipes reduzidas e promessas sem prazo
Procurada pela reportagem da Ilha do Mel FM, a Secretaria Municipal de Inclusão, por meio de sua assessora especial de Atendimento e Inclusão Social, Sheila Regina Batista Ferreira, que é professora da Rede Municipal, afirmou que parte dos atendimentos especializados segue em funcionamento. Segundo ela, a pasta conta atualmente com uma assistente social, duas fonoaudiólogas e duas psicólogas, responsáveis por ações como ensino estruturado, psicopedagogia, estimulação precoce, estimulação visual e atendimento a crianças com dislexia e TDAH. A equoterapia também estaria ativa, além das oficinas especializadas de musicalização, teatro, artes manuais, futebol, jiu-jitsu e capoeira.
No CMAE, de acordo com Sheila, atuam três psicólogas, uma fonoaudióloga, uma terapeuta ocupacional, uma assistente social e três professoras psicopedagogas avaliadoras. Já a Central de Libras Bruna Pivato permanece em funcionamento com quatro profissionais.
A representante da pasta também destacou o projeto “Preparação, Inserção e Acompanhamento no Mercado de Trabalho”, que já teria encaminhado dois jovens com deficiência ao trabalho formal, além de manter outros dois em fase de treinamento. Segundo ela, um novo programa voltado ao atendimento dos pais está em fase final de ajustes, embora ainda sem prazo definido para ser implementado.
Apesar dessas informações, o que pais e vereadores relatam é um cenário muito diferente. Famílias denunciam que, desde o início do ano letivo, os filhos deixaram de receber o acompanhamento terapêutico especializado, acumulando prejuízos evidentes no desenvolvimento cognitivo, emocional e comportamental. Mães atípicas afirmam que os atendimentos foram suspensos ou severamente reduzidos, e que faltam informações claras por parte do Executivo. A situação se agrava com a interrupção do ensino integral em escolas municipais e Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs), comprometendo ainda mais a rotina e o suporte dessas crianças.
A própria Secretaria reconhece que houve perdas significativas na equipe. Uma terapeuta ocupacional e uma fonoaudióloga foram transferidas para a Secretaria de Saúde; outra terapeuta ocupacional se aposentou; duas psicólogas foram desligadas no fim de 2024; e a fonoaudióloga remanejada também está em processo de aposentadoria. Até o momento, não há anúncio oficial sobre a reposição desses profissionais.






