Por Luiza Rampelotti
Um dos mais importantes ecossistemas estuarinos do Brasil passará a contar com um sistema inovador de monitoramento ambiental e pesqueiro baseado em sequenciamento genético de última geração. Trata-se do projeto PortoBio, concebido e executado pela empresa ATGC Genética Ambiental Ltda., em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), que receberá R$ 3,97 milhões provenientes da indenização paga pela Petrobras como reparação pelo desastre ambiental ocorrido no Rio Iguaçu, em 2000. A proposta foi aprovada no início de junho pela Justiça Federal e será implementada no Complexo Estuarino de Paranaguá (CEP), com previsão de execução ao longo de 54 meses.
O episódio que deu origem aos recursos remonta a julho de 2000, quando um vazamento de óleo da Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar), da Petrobras, comprometeu gravemente a qualidade da água do Rio Iguaçu e afetou os sistemas hídricos da Região Metropolitana de Curitiba. Mais de duas décadas depois, um Termo de Acordo Judicial (TAJ) permitiu a destinação dos valores indenizatórios a projetos de caráter ambiental em diversas regiões do estado. O PortoBio foi uma das iniciativas contempladas no escopo do Agravo de Instrumento nº 5020890-51.2022.4.04.0000/PR, que prevê a aplicação de recursos em ações com abrangência estadual.
Com escopo, método e objetivos inéditos no país, o projeto propõe a aplicação de tecnologias moleculares de ponta para transformar o modo como se monitora a biodiversidade marinha e os estoques pesqueiros. Utilizando técnicas de DNA ambiental (eDNA) e metabarcoding, o PortoBio permitirá identificar com precisão a composição biológica das águas do porto, detectar precocemente organismos exóticos, avaliar a integridade dos ecossistemas e acompanhar, de forma contínua, a dinâmica das espécies de interesse econômico e ambiental.
Uma resposta inovadora aos desafios ambientais do litoral paranaense
O cenário escolhido para esse avanço científico não é casual. O Complexo Estuarino de Paranaguá, composto pelas baías de Paranaguá, Antonina, Laranjeiras e Guaraqueçaba, é um dos maiores e mais biodiversos do Brasil. Ao mesmo tempo, é uma região altamente pressionada pela movimentação portuária crescente e pelas atividades econômicas associadas ao transporte marítimo, à pesca e à exploração territorial.

Nos últimos anos, os portos de Paranaguá e Antonina registraram crescimento contínuo nas operações. Somente em 2024, foram movimentadas 66 milhões de toneladas, um recorde histórico. Essa atividade econômica intensa, embora essencial, impõe fortes pressões ambientais sobre a região, como poluição por hidrocarbonetos, introdução de espécies invasoras via água de lastro, sobrepesca e degradação de habitats.
Apesar da ausência de evidências conclusivas de danos diretos, os impactos cumulativos preocupam especialistas. “O PortoBio surge, portanto, como ferramenta de vigilância e ação preventiva, oferecendo subsídios científicos robustos para decisões de conservação e mitigação ambiental”, explica Aline Horodesky, coordenadora técnica e operacional do projeto em entrevista à Ilha do Mel FM.
O que é o DNA ambiental e por que ele revoluciona o monitoramento?
A metodologia adotada no projeto PortoBio utiliza a coleta e análise de DNA ambiental (eDNA), técnica que permite identificar a presença de organismos aquáticos a partir de fragmentos genéticos deixados na água como escamas, mucosas ou fezes. Associado ao metabarcoding, esse método possibilita o reconhecimento simultâneo de dezenas de espécies em uma única amostra, incluindo organismos raros ou de difícil detecção por meios tradicionais.
Essa abordagem tecnológica oferece subsídios para a detecção precoce de espécies invasoras, o monitoramento contínuo da abundância relativa de peixes, crustáceos e moluscos com relevância econômica, a avaliação de mudanças na estrutura das comunidades aquáticas, a construção de indicadores genéticos sobre a qualidade ambiental e, por fim, a formação de um banco de dados genômico abrangente e confiável sobre a biodiversidade marinha da região.
Impacto regional
O projeto prevê coletas trimestrais em 48 pontos distribuídos entre as baías de Paranaguá, Antonina, Laranjeiras e Guaraqueçaba, durante quatro anos consecutivos. A área inclui tanto zonas de maior impacto (próximas aos portos) quanto regiões preservadas, ampliando o alcance e a representatividade do monitoramento.
Em cada ponto, serão coletadas quatro amostras. Três delas serão analisadas e uma será armazenada em banco de amostras, a -80ºC, para garantir a rastreabilidade dos dados e permitir reanálises futuras. Ao final do período, serão processadas mais de duas mil amostras e gerados mais de 9,7 milhões de registros genéticos – cada um deles representando uma ocorrência biológica no tempo e no espaço.
Com base nesses dados, serão produzidos relatórios técnicos semestrais, um banco de dados digital, indicadores de abundância relativa de espécies pesqueiras e recomendações para políticas públicas e medidas de manejo ambiental. Além disso, o projeto garante rastreabilidade e possibilidade de reanálise futura dos dados, algo raro em práticas de monitoramento ambiental.
Equipe qualificada e estrutura de ponta
A complexidade técnica do PortoBio exige uma estrutura de ponta. O projeto será conduzido a partir dos laboratórios da ATGC, instalados na UFPR, com experiência reconhecida em projetos de pesquisa e inovação e com uma equipe multidisciplinar que reúne doutores em biologia molecular, bioinformática, engenharia de pesca, veterinária, zootecnia e comunicação científica.
A infraestrutura laboratorial inclui ambientes específicos para recepção, extração e análise de amostras, com sistemas de backup energético e controle de qualidade rigoroso. A ATGC também está em processo de certificação pela ISO 17025, o que garantirá ainda mais confiabilidade nos dados.
“O projeto será executado a partir do trabalho de uma equipe técnica de alto nível, composta por dez profissionais, contemplando cinco doutores, quatro mestres e um especialista”, explica Aline Horodesky. Segundo ela, a estrutura foi desenhada para assegurar a implementação de tecnologias de ponta, otimizar a infraestrutura laboratorial e garantir a qualidade das análises.
Compromisso com a sociedade e a ciência aberta
Para além da produção científica e da inovação metodológica, o PortoBio aposta na formação de capital humano e na democratização do conhecimento como pilares centrais de sua estratégia. Está prevista a capacitação de, no mínimo, 50 estudantes e profissionais técnicos, além da implementação de ações contínuas de divulgação científica em linguagem acessível, voltadas a diferentes públicos. O projeto também contempla um plano de comunicação estruturado para garantir o diálogo permanente com gestores públicos, comunidades tradicionais, colônias de pescadores e representantes do setor portuário.
“A expectativa é que os dados gerados ao longo dos 54 meses de execução não apenas subsidiem a gestão ambiental do Complexo Estuarino de Paranaguá, mas se tornem referência para políticas públicas em outras regiões costeiras do país. A proposta é transformar o Porto de Paranaguá em um modelo nacional de monitoramento ambiental baseado em evidências científicas, promovendo uma nova cultura de manejo sustentável”, destaca Aline Horodesky.
Para viabilizar sua implementação de forma ampla, o PortoBio adotará um modelo de governança participativa, baseado na articulação direta com os principais atores institucionais e sociais envolvidos na gestão do território. A coordenação do projeto prevê parcerias estruturadas com a administração dos Portos do Paraná, o Instituto Água e Terra (IAT), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), prefeituras da região e organizações representativas da sociedade civil, como colônias de pescadores e entidades ambientalistas. A proposta é estabelecer uma rede colaborativa de acompanhamento, avaliação e validação dos dados gerados, assegurando que os resultados do monitoramento tenham aderência às realidades locais e contribuam efetivamente para a tomada de decisão ambiental.
De acordo com a coordenadora geral, Aline Horodesky, os primeiros passos operacionais do projeto devem ser iniciados em breve. “Estamos nas tratativas do projeto há quase um ano já. Agora iniciam os trâmites dentro da UFPR em conjunto com a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Sustentável (SEDEST)”, conclui.
À Ilha do Mel FM, a Portos do Paraná afirmou que está à disposição do projeto e de compartilhar mais informações sobre os monitoramentos que são realizados. “Atualmente, a empresa realiza monitoramentos ambientais continuados desde 2014, que vão desde a qualidade das águas, sedimentos, atividade pesqueira, manguezais, biota aquática, dentre outros“, informou.
A empresa pública também destacou que desde 2024 já investiu em torno de R$ 35 milhões em programas de meio ambiente e ações socioambientais. O valor representa um aumento de 18% em relação ao investido em 2023 (R$ 29,6 milhões).











