Antonina convive há anos com a deterioração de alguns de seus principais patrimônios históricos e com obras públicas que avançam lentamente ou permanecem sem conclusão. Enquanto prédios simbólicos seguem fechados aguardando recursos e aprovações técnicas, estruturas de lazer, equipamentos públicos e projetos de revitalização continuam à espera de definições administrativas.
Entre os casos que mais preocupam moradores está o do Salão Paroquial, fechado há sete anos. O espaço integra o conjunto histórico da Igreja Matriz – Santuário Nossa Senhora do Pilar, um dos principais cartões-postais de Antonina e importante atrativo turístico do município. Além de impedir a realização de atividades religiosas e comunitárias, a situação também compromete a preservação de um dos mais relevantes bens históricos da cidade.
O assunto voltou a ganhar repercussão após cobranças de vereadores durante sessão da Câmara Municipal realizada em 2 de junho. Na ocasião, foram solicitadas informações sobre o andamento dos projetos de restauração e a busca por recursos para recuperação do complexo.
Segundo as informações apresentadas, a restauração enfrenta obstáculos técnicos e financeiros. Por se tratar de um patrimônio tombado, qualquer intervenção depende da elaboração de projetos específicos e da aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A vereadora Patrícia Alves Takasaki (PL) destacou que o abandono dos prédios históricos afeta não apenas a paisagem urbana, mas também a identidade da população. “A nossa cidade é histórica, é visitada muitas vezes pelas pessoas porque querem conhecer o patrimônio histórico de Antonina. E aí chegam aqui e veem esses prédios nessa condição que está. A gente, como antoninense, tem dó de ficar olhando daquele jeito”, disse.
De acordo com a parlamentar, recursos obtidos anteriormente por meio de emenda parlamentar foram praticamente consumidos na elaboração dos projetos técnicos exigidos pelos órgãos de preservação. “Todos os projetos precisam da aprovação do IPHAN. Esse projeto praticamente usou todo o recurso de R$ 600 ou R$ 700 mil que veio via emenda parlamentar, porque teria que ser feito ou aprovado por eles, pelas exigências e normas”, comentou.
Em maio de 2025, representantes do IPHAN estiveram em Antonina e entregaram os projetos destinados à restauração da Igreja Matriz e do Salão Paroquial à comunidade local e à Diocese de Paranaguá, proprietária dos bens. Os projetos foram contratados pelo órgão com recursos de emenda parlamentar no fim de 2022 e o orçamento estimado para execução das obras é de aproximadamente R$ 5,9 milhões.
Durante a visita à cidade, o IPHAN apontou o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) como uma das alternativas para captação de recursos, em diálogo com a prefeita Rozane Osaki (PSD) e representantes da paróquia.
Também existe a expectativa de utilização de aproximadamente R$ 5 milhões oriundos da Itaipu Binacional para a recuperação do Salão Paroquial e da Igreja Matriz, embora ainda não haja confirmação oficial sobre a liberação dos recursos ou um cronograma para início das obras.
Para o vereador Vitor Fernandes (PP), a demora na recuperação prejudica não apenas a comunidade religiosa, mas também o potencial turístico da cidade. “Há mais de sete anos a comunidade católica está aguardando essa restauração. O nosso santuário é um dos principais centros turísticos. Muitos vêm aqui, veem aquela bela paisagem e tiram fotos. Ela sendo restaurada será bom não só para nós munícipes, mas para todos os turistas”, disse.
Patrimônio precisa de preservação permanente
Para o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), escritor e pesquisador da história de Antonina, Eduardo Nascimento, a preservação do patrimônio histórico precisa ir além das obras de restauro e envolver ações permanentes de conscientização e ocupação desses espaços.
“O problema que encontro hoje, e que nos entristece e preocupa, é a falta de uma campanha de esclarecimento sobre a importância do nosso patrimônio histórico e da nossa própria história. Isso deveria começar nas escolas e se estender à população, para que não percamos esse sentimento de pertencimento”, destacou em entrevista à Ilha do Mel FM.
Segundo o professor, a cidade possui outros imóveis em situação preocupante, como o antigo Clube Literário e a antiga sede da Prefeitura, ambos sem uso definido.

Ele defende que a recuperação dos prédios históricos deve estar acompanhada de projetos que garantam sua utilização e manutenção ao longo do tempo. “Não adianta quase nada recuperar um imóvel histórico e não dar alma a ele. Os imóveis precisam de alma, e a alma dos imóveis é a manutenção, a conservação, as pessoas e a movimentação. Ele precisa funcionar como um gerador de energia, de riqueza e de renda”, avaliou.
Para Eduardo, o patrimônio histórico pode se tornar uma ferramenta de desenvolvimento local, especialmente por meio do turismo. “O que falta é um projeto que vá além da recuperação física do patrimônio, tornando esses espaços verdadeiros geradores de desenvolvimento. Isso pode acontecer por meio do turismo cultural, do turismo religioso, entre outras possibilidades”, pontuou.
Prédios históricos aguardam soluções
A situação não se restringe ao conjunto do Santuário Nossa Senhora do Pilar. A antiga sede da Prefeitura de Antonina permanece fechada há anos e enfrenta desafios relacionados ao alto custo e à complexidade dos projetos necessários para sua restauração.
Outro imóvel que também gera preocupação é o Armazém Macedo. Em resposta encaminhada ao Legislativo, a Prefeitura informou que o prédio pertence à União e está sob guarda provisória do Município.
Segundo a Secretaria Municipal de Turismo, Cultura e Patrimônio Histórico, a Administração Municipal assumiu a responsabilidade pelo espaço após o encerramento da gestão vinculada ao Sesc, buscando garantir a continuidade do uso institucional e a preservação da destinação pública do imóvel.
O Município afirma que realiza as ações de conservação previstas no Termo de Guarda, mas ressalta que intervenções estruturais de maior complexidade dependem de avaliações técnicas e devem seguir as diretrizes da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e dos órgãos de proteção. A Prefeitura informou ainda que estuda alternativas para a destinação futura do espaço e busca possíveis parcerias para garantir sua preservação.
Mercado Municipal aguarda revitalização
Outro ponto que preocupa moradores é a situação do Mercado Municipal. Frequentadores e artesãos relatam problemas estruturais, especialmente infiltrações, alagamentos e a necessidade de manutenção no telhado e nas calhas da área onde funciona a loja dos artesãos de Antonina.
A expectativa por melhorias aumentou em fevereiro de 2025, quando a Prefeitura anunciou um projeto de Requalificação Urbana para o Centro Histórico. A proposta prevê a construção de uma nova rodoviária municipal, a implantação de um novo Mercado Municipal no espaço da antiga rodoviária, a requalificação do entorno e a criação de uma praça pública integrada à baía.
Apesar do anúncio, ainda não há previsão para o início das obras. Conforme a Secretaria Municipal de Obras e Urbanismo, o projeto de revitalização do Mercado Municipal permanece em fase de análise técnica documental junto à Secretaria de Estado das Cidades (SECID), com 70% de andamento nessa etapa.
A Prefeitura informou que acompanha a tramitação, atende às exigências técnicas e mantém a documentação necessária, mas a execução depende da conclusão da análise estadual e das demais formalizações administrativas.
Obras e estruturas seguem sem prazo definitivo
Além dos prédios históricos, outros equipamentos públicos aguardam soluções.
O trapiche da Ponta da Pita permanece sem o flutuante Levi Ribeiro. Segundo a Prefeitura, o processo para reinstalação da estrutura está em tramitação no Departamento de Licitação, sem previsão de execução.
Já a quadra da Escola Municipal Octávio Secundino, no bairro Portinho, segue interditada pela Defesa Civil após sofrer danos durante um vendaval registrado em dezembro de 2025. Desde então, a comunidade escolar enfrenta dificuldades para realizar atividades esportivas e recreativas, além de conviver com preocupações relacionadas à segurança do espaço.
O Município informou que o processo de contratação da obra de recuperação está em andamento, mas os trâmites administrativos podem levar até seis meses para serem concluídos.
Além disso, mesmo com a obra de revitalização da Avenida Conde Matarazzo em estágio avançado, moradores ainda enfrentam problemas no local. Embora cerca de 85% da pavimentação em concreto já tenha sido executada ao longo de mais de 2,5 quilômetros da via, um dos trechos liberados para circulação permanece sem iluminação pública após furtos de cabos de energia.
A obra faz parte de um investimento de R$ 18,4 milhões em infraestrutura viária no município, executado pela Portos do Paraná em parceria com o Governo do Estado. A falta de iluminação no período noturno tem gerado reclamações de usuários pela sensação de insegurança.
Durante sessão da Câmara Municipal, o vereador Vitor Fernandes cobrou providências para solucionar o problema da iluminação. “Aquele trecho já ficou liberado no período de fevereiro. As obras ali naquele trecho já estão praticamente prontas. Acontece que as pessoas estão transitando por ali totalmente no escuro. A população não pode pagar pelo vandalismo daqueles que depreciam o que é público”, afirmou.







