Por Luiza Rampelotti
A Central de Regulação do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU) do Litoral do Paraná será transferida de Paranaguá para Curitiba. A mudança, prevista para ocorrer até o segundo semestre deste ano, significa que as chamadas ao 192, que atualmente são atendidas diretamente no Litoral, passarão a ser direcionadas para a capital antes de serem repassadas às ambulâncias que operam na região.
A decisão foi tomada pela maioria dos prefeitos dos sete municípios que integram o Consórcio Intermunicipal de Saúde do Litoral do Paraná (CISLIPA) e tem como justificativa a busca por economicidade. No entanto, a transição levanta preocupações sobre possíveis impactos no atendimento à população, especialmente devido às particularidades do Litoral, como localidades remotas, aumento da demanda durante a temporada de verão e dificuldades de comunicação em áreas sem sinal telefônico.
Mudança para Curitiba visa redução de custos
Em entrevista à Ilha do Mel FM, o diretor executivo do CISLIPA, Daniel Fangueiro, explica que a transferência da central de regulação vem sendo discutida há mais de cinco anos e foi aprovada pelos gestores municipais devido à necessidade de otimizar os custos do serviço.
“Hoje temos a central de regulação aqui em Paranaguá, mas passamos por alguns problemas pontuais. Essa transição não é uma ideia recente e agora está sendo efetivada porque representa um princípio de economicidade para os municípios”, afirma.
Segundo Fangueiro, a unificação da regulação do SAMU no Paraná em uma central única na capital pode reduzir despesas com infraestrutura, equipamentos e pessoal, além de mitigar falhas de comunicação que ocorrem periodicamente no atendimento ao 192 no Litoral.
“A ideia é que, ao ser integrado à central de Curitiba, o SAMU Litoral funcione de maneira mais estável e eficiente. A regulação já ocorre assim em outras regiões do estado, como no caso do 190 da Polícia Militar. A expectativa é que isso reduza atrasos no atendimento das chamadas e padronize os protocolos de resposta”, explica.

Preocupações com impacto no atendimento
Apesar dos argumentos financeiros, a decisão não foi recebida sem questionamentos. O CISLIPA levantou diversas preocupações junto à Secretaria de Estado da Saúde (SESA) sobre os desafios que a mudança pode trazer para o atendimento emergencial no Litoral.
Entre os principais pontos de atenção está a dificuldade de acesso a algumas comunidades, especialmente em ilhas e regiões rurais sem sinal de telefonia móvel. Atualmente, os profissionais do SAMU Litoral conhecem as peculiaridades geográficas da região e utilizam meios alternativos de comunicação, como aplicativos de mensagens e rádios de emergência, para garantir que os chamados sejam atendidos.
“Perguntamos à SESA se a central em Curitiba terá um sistema que contemple essas necessidades. Muitas chamadas no Litoral não vêm de endereços formais, mas de referências informais, como apelidos de bairros ou pontos turísticos. Será necessário um treinamento especial para que os atendentes na capital consigam identificar corretamente as localizações e não comprometam o tempo de resposta”, alerta o diretor-executivo.
Outro ponto destacado é a variação da demanda ao longo do ano. Durante a temporada de verão e feriados prolongados, a população das cidades litorâneas aumenta significativamente, exigindo um reforço na estrutura de atendimento. O consórcio questionou se a regulação na capital terá um plano de contingência para atender esse crescimento sazonal da demanda, evitando sobrecarga do sistema e atrasos no envio de ambulâncias.
Impacto sobre os profissionais da regulação em Paranaguá
A mudança também traz incertezas para os trabalhadores que atuam na regulação do SAMU em Paranaguá. Atualmente, a central conta com médicos reguladores, técnicos de enfermagem, rádio-operadores e atendentes responsáveis pelo despacho das ambulâncias. Com a transferência do serviço para Curitiba, esses profissionais podem ser realocados ou até mesmo dispensados.
“A regulação em Curitiba tornaria o número de funcionários que temos hoje aqui excedente. Como o CISLIPA detém o contrato desse pessoal, estamos estudando a possibilidade de cedê-los para os municípios que integram o consórcio, caso haja interesse”, explica Fangueiro.
O consórcio também busca dialogar com a SESA para avaliar a possibilidade de absorção desses profissionais pela nova central, aproveitando sua experiência na regulação de atendimentos no Litoral.
Prazos e medidas para minimizar impactos
A previsão é que a mudança seja concluída até o final do segundo semestre. Para minimizar possíveis impactos no atendimento, o CISLIPA está adotando medidas como a ampliação da infraestrutura local do SAMU e a criação de bases descentralizadas. Uma nova unidade será instalada no bairro Padre Jackson, em Paranaguá, para agilizar o deslocamento das ambulâncias em caso de bloqueios na linha férrea que corta a cidade.
Além disso, o consórcio estuda a aquisição de uma ambulancha para atender ocorrências em ilhas e está em tratativas para garantir a disponibilidade de resgate aeromédico em situações de difícil acesso.
“A mudança na regulação não significa que o serviço local será enfraquecido. Pelo contrário, estamos buscando reforçar a estrutura do SAMU no Litoral para que o atendimento continue sendo ágil e eficiente, independentemente de onde esteja localizada a central de chamadas”, garante Fangueiro.
Ainda assim, ele reconhece que a transição exigirá um período de adaptação e que desafios poderão surgir ao longo do processo. “Sabemos que mudanças como essa podem gerar preocupações, e por isso estamos acompanhando de perto cada etapa da implementação. O importante é garantir que a população continue recebendo um atendimento de qualidade e que a regulação à distância não comprometa a efetividade do serviço”, conclui.
O que muda para a população?
Para quem precisa do atendimento do SAMU no Litoral, o número 192 continuará o mesmo e o funcionamento seguirá inalterado. A principal mudança será nos bastidores: ao invés de ser atendido por uma central em Paranaguá, o chamado será direcionado para Curitiba e de lá encaminhado às ambulâncias locais.
O CISLIPA promete campanhas educativas para informar a população sobre a mudança e garantir que o processo ocorra de forma transparente e segura.