Diversos sacos semelhantes aos utilizados na contenção emergencial da erosão costeira em Matinhos foram encontrados no mar e em praias de Pontal do Paraná na quarta-feira, 21, a cerca de 25 quilômetros de distância do ponto onde foram originalmente instalados. O material teria sido usado para evitar a formação de um paredão de areia após episódios de ressaca que atingiram o litoral paranaense neste verão.
O paredão se formou nas proximidades da estrutura montada para os shows do Verão Maior Paraná, promovido pelo Governo do Estado. A primeira ocorrência foi registrada no dia 4 de janeiro, quando equipes estaduais realizaram uma intervenção emergencial. Na ocasião, cerca de 1.900 sacos com areia foram utilizados para recompor e nivelar a orla da praia.
No entanto, uma nova ressaca registrada no dia 19 de janeiro provocou a formação de outro degrau na faixa de areia e chegou a derrubar banheiros químicos instalados no local. Com a força do mar, alguns dos sacos utilizados na contenção começaram a se soltar, aparecendo posteriormente boiando no mar ou espalhados pela orla. Parte do material já estava vazia, rasgada ou se desmanchando, e uma manta usada para conter os bolsões também foi danificada.

O fotógrafo André Neto registrou o momento em que o surfista Edson Luiz Vasques retirava um dos sacos da água no Pico de Matinhos. Segundo ele, a atitude foi motivada pela preocupação ambiental.
“Estava indo dar minha aula para o meu aluno. Vi aquele saco boiando e a primeira atitude que eu tive foi tirá-lo dali para poder manter o local limpo. O mar para mim é sagrado, é de onde eu tiro o meu sustento e pratico esse esporte maravilhoso que é o surf”, afirmou.
Em Pontal do Paraná, durante uma caminhada matinal, Giselle Mazuroski e o marido também encontraram sacos semelhantes na areia. Uma das etiquetas fotografadas por ela é idêntica à registrada no paredão de Matinhos.
“O que o mar conseguiu devolver, nós arrastamos. A preocupação é com o que está dentro do mar. Eu, como professora, ensinei tantas vezes para os meus alunos a preocupação em relação aos plásticos, com os animais marinhos, e agora fico imaginando o que esses bolsões e pacotes desfiados podem estar causando ali”, relatou.
Pesquisadores do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR) também identificaram e recolheram embalagens semelhantes nos balneários de Shangri-lá e Pontal do Sul. De acordo com a coordenadora do programa, Camila Domit, o impacto ambiental é significativo.
“É problemático para a biodiversidade marinha, tanto quando ele tem essa forma maior, quanto quando ele é degradado. O plástico vai ficar centenas de anos no ecossistema e todo o processo de degradação vai causar diferentes tipos de problemas à biodiversidade e ao ecossistema marinho”, explicou.
Em entrevista concedida à RPC na terça-feira, 20, antes de os sacos aparecerem em outras praias, o presidente do Instituto Água e Terra (IAT), Everton Luiz da Costa Souza, informou que os sacos são feitos de ráfia, material não biodegradável, mas garantiu que seriam recolhidos.
“Todos aqueles sacos que estão aparecendo ali estão sendo recolhidos e serão destinados, ou mesmo reaproveitados, porque a ideia foi fazer uma barreira semirrígida para absorver os efeitos da maré”, afirmou.

Apesar disso, na tarde desta quarta-feira, a equipe da RPC constatou que muitos sacos ainda permaneciam no paredão em Matinhos. Alguns apresentavam a inscrição “não reutilizável” e outros traziam informações relacionadas a fertilizantes nas embalagens.
Diante da situação, o Ministério Público Federal (MPF) informou que solicitou diligências ao Ibama e alertou que, caso se confirme a colocação de sacos plásticos na orla, o fato pode caracterizar poluição ambiental, com possíveis responsabilidades cíveis e criminais.
Em nota, o IAT afirmou que segue trabalhando na manutenção da contenção para enfrentar o processo erosivo, utilizando areia retirada de regiões onde houve acréscimo nos últimos anos. O instituto informou ainda que os sacos em condições de uso estão sendo reaproveitados e que os danificados estão sendo substituídos. O órgão também determinou que a empresa responsável pela obra realize uma varredura nas praias de Matinhos e de outros municípios para recolher eventuais sacos levados pelo mar.
O IAT não respondeu aos questionamentos sobre as etiquetas que indicam fertilizantes nas embalagens nem sobre os possíveis riscos de poluição da água.
Com informações da RPC








