A avaliação do Plano Municipal de Saúde e a apresentação dos relatórios do primeiro quadrimestre de 2026, realizada em 29 de maio, na Câmara Municipal de Antonina, expuseram um cenário de forte pressão financeira sobre a saúde pública, problemas estruturais persistentes e indicadores abaixo da meta. Os dados apresentados pela Secretaria Municipal de Saúde revelaram um déficit operacional superior a R$ 4,4 milhões entre janeiro e abril, além de gastos que chegaram a 28,3% do orçamento municipal, acima do índice mínimo constitucional (15%) e distante da meta de redução debatida anteriormente no Legislativo.
O novo secretário municipal de Saúde, João Paulo Nunes, que assumiu a pasta no dia 25 de maio, apresentou os números diante dos vereadores e reconheceu a necessidade de reorganização do setor. Segundo ele, as despesas da secretaria totalizaram R$ 11,5 milhões no primeiro quadrimestre, enquanto os recursos somados entre repasses e verbas da Atenção Primária chegaram a aproximadamente R$ 7,1 milhões, gerando um desequilíbrio financeiro de mais de R$ 4,4 milhões.
Ao explicar o cenário, o secretário ressaltou o momento de transição da gestão e afirmou que pretende reorganizar administrativamente a pasta. “Procuro o entendimento dos senhores, que entendam que eu assumi a pasta na segunda-feira (25). Qualquer esclarecimento que seja necessário, eu estou à disposição”, declarou durante a audiência.
A prestação de contas também reacendeu um debate recorrente na Câmara: o peso da saúde nas finanças do Município. Durante a audiência, o vereador Vítor Fernandes (PP) demonstrou preocupação com o aumento do percentual de aplicação na área, lembrando que, em encontros anteriores, havia sido discutida a perspectiva de redução do índice para cerca de 25%.
“A saúde hoje consome 28% do orçamento do nosso Município, um valor que é praticamente o dobro do mínimo legal. É algo que a gente tem que ter um olhar criterioso em cima”, afirmou o parlamentar.
Ainda segundo o vereador, o elevado comprometimento orçamentário afeta a capacidade de investimento em outras áreas da cidade, como manutenção urbana, segurança e infraestrutura, especialmente em um município de pequeno porte. Ele detalhou que, dos 28,3% aplicados, aproximadamente 16% estariam concentrados apenas na folha de pagamento, restando uma parcela menor para custeio, aquisição de insumos, manutenção de veículos e investimentos diretos no sistema de saúde.
Falhas estruturais e operacionais
Além dos números financeiros, a audiência pública trouxe à tona dificuldades estruturais e operacionais da rede municipal. Entre os pontos levantados esteve a situação do Hospital Dr. Silvio Bittencourt Linhares, cuja cobertura, segundo os debates, apresenta um problema de manutenção considerado antigo e ainda sem solução definitiva. O tema foi tratado como uma das urgências para a nova gestão da secretaria, embora não tenha sido apresentado um cronograma técnico ou orçamentário específico para a intervenção.
Outro ponto debatido envolveu o transporte de pacientes. Foram relatadas reclamações relacionadas à condução de ambulâncias em alta velocidade nas rodovias, além de questionamentos sobre abastecimento e desgaste da frota, apontando fragilidades operacionais no sistema.

Índices baixos de vacinação
A audiência também evidenciou dificuldades no cumprimento das metas de vacinação do Município. Dados do primeiro quadrimestre apontaram índices abaixo do esperado em imunizantes considerados estratégicos, como a vacina meningocócica, com cobertura de 15%, a vacina contra febre amarela, com 42%, e a pentavalente, que atingiu 65%.
Segundo o secretário João Paulo, a gestão está buscando a melhora dos serviços através de “frequentes capacitações para os profissionais e colaboradores” e a meta é fortalecer a Atenção Primária para que as unidades de saúde estejam “prontas e presentes para o recebimento dos nossos pacientes”.
Três secretários em um ano e meio
No campo administrativo, a instabilidade na condução da Secretaria Municipal de Saúde também foi apontada como um fator de preocupação pelo vereador Vítor Fernandes. Durante a audiência, o parlamentar destacou que a sucessiva troca de gestores pode comprometer a continuidade de planejamento, a execução de políticas públicas e a consolidação de medidas de reorganização da rede municipal.
Em um período de aproximadamente um ano e meio, a pasta passou por três titulares diferentes. No início da gestão da prefeita Rozane Osaki (PSD), em janeiro de 2025, André Luis da Costa Pereira foi nomeado secretário de Saúde. Em 27 de abril de 2026, ele foi exonerado e, no dia seguinte, a enfermeira Mitsuy Kuryama assumiu o cargo. A permanência, porém, foi curta: menos de um mês depois, em 25 de maio, João Paulo Nunes foi nomeado novo secretário, tornando-se o terceiro responsável pela pasta desde o início da atual administração.
Como resposta aos desafios apresentados, o novo secretário afirmou que pretende concentrar os primeiros esforços em uma reorganização funcional da secretaria, reestruturação dos serviços e fortalecimento da Atenção Primária, buscando tornar as Unidades de Saúde a principal porta de entrada do sistema e reduzir a pressão sobre atendimentos mais complexos. No entanto, não foi apresentado um plano detalhado, metas objetivas ou cronograma para redução dos gastos ou resolução dos principais problemas estruturais apontados durante a audiência.







